Bauta, tradição do Carnaval
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Carnaval de Veneza: Uma Tradição Centenária de Elegância e Mistério

Conheça as origens históricas do Carnaval de Veneza

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O Carnaval de Veneza, um dos eventos mais emblemáticos e aguardados da Itália, é conhecido por sua atmosfera única, que combina mistério, elegância e tradição. Com origens que remontam à Roma Antiga, a festa evoluiu ao longo dos séculos, tornando-se um ícone mundial de celebração e cultura.

Origens Romanas e a Evolução do Carnaval

A história do Carnaval de Veneza começa nas antigas tradições romanas, mais especificamente nas festas de Saturnália, um festival dedicado ao deus Saturno, onde as normas sociais eram invertidas, e a liberdade de expressão era promovida. Este espírito de libertação e diversão foi absorvido pelas festas medievais em Veneza, que passaram a ser associadas aos dias de Carnaval.

Essas festividades ocorriam no final de dezembro, marcando o solstício de inverno e promovendo a inversão de papéis sociais, onde escravos e senhores trocavam suas posições. Assim como no Carnaval contemporâneo, as Saturnais envolviam banquetes, danças e o uso de máscaras para esconder a identidade e permitir uma liberdade de comportamento sem repercussões sociais.

Durante a Idade Média, Veneza adotou essas tradições, adaptando-as ao contexto cristão como uma forma de celebração antes do início da Quaresma. O primeiro registro oficial do Carnaval de Veneza data de 1296, quando o Senado da Sereníssima República de Veneza declarou o dia anterior à Quaresma como um feriado público. A partir de então, o Carnaval evoluiu para um evento grandioso, refletindo o esplendor e a riqueza da República Veneziana.

No entanto, foi apenas no século XI que o evento começou a ganhar uma estrutura mais formal. Durante este período, as festas começaram a ocorrer em torno do dia 25 de janeiro, dia de São Paulo, com celebrações que se estendiam por dias.

Com o tempo, o Carnaval de Veneza se tornou um dos maiores eventos sociais da cidade, especialmente durante a República de Veneza, quando a nobreza e os comerciantes das principais famílias de Veneza se envolviam em festas luxuosas e bailes mascarados, nas quais as identidades eram ocultadas por meio das famosas máscaras.

O Apogeu do Carnaval Veneziano

O Carnaval de Veneza atingiu seu auge no século XVIII, quando a cidade era um dos centros culturais e econômicos mais importantes da Europa. Durante este período, o evento não só era um momento de diversão, mas também uma válvula de escape para as rígidas normas sociais da época. Máscaras e fantasias permitiam que as pessoas navegassem livremente entre diferentes classes sociais, promovendo um anonimato que favorecia encontros amorosos, jogos de azar e discussões políticas proibidas.

Giacomo Casanova, o famoso aventureiro e sedutor veneziano, é frequentemente associado a essa época dourada do Carnaval, aproveitando o anonimato das máscaras para viver suas aventuras românticas e escapadas ousadas.

As Máscaras: Símbolos de Liberdade e Mistério

As máscaras desempenham um papel central no Carnaval de Veneza. Elas eram usadas para ocultar a identidade dos participantes, permitindo-lhes agir sem as restrições sociais normais. Esse anonimato gerava uma sensação de liberdade, onde as classes sociais se misturavam, criando uma atmosfera única de igualdade momentânea. Cada tipo de máscara tinha um significado específico, com algumas mais simples e outras extremamente elaboradas, feitas com detalhes finos e adornos de luxo.

Tipos de Máscaras e Seus Significados 

Bauta

A Bauta é uma das máscaras mais tradicionais e enigmáticas do Carnaval de Veneza. Cobria totalmente o rosto, com um queixo pronunciado que permitia falar, comer e beber sem precisar removê-la. Era frequentemente usada com um manto negro (tabarro) e um tricórnio (chapéu de três pontas), garantindo o anonimato total. A Bauta era popular entre nobres e políticos para reuniões secretas.

Moretta

A Moretta era uma máscara oval, usada principalmente por mulheres. Cobria todo o rosto e era mantida no lugar com um botão na boca, o que impedia a usuária de falar, adicionando um ar de mistério e submissão feminina. Essa máscara era popular em encontros amorosos e intrigas sociais. 

Volto (ou Larva)

O Volto, também conhecido como Larva, é uma máscara branca que cobre todo o rosto, geralmente usada com um manto preto e um tricórnio. Sua simplicidade conferia um ar fantasmagórico e anônimo, sendo usada por aqueles que desejavam total privacidade.

Colombina

Inspirada na personagem da Commedia dell’Arte, a Colombina é uma máscara feminina que cobre apenas os olhos. Frequentemente decorada com ouro, prata e penas, é uma das máscaras mais glamorosas e é popular entre as mulheres até hoje.

Arlecchino e Pantalone

Essas máscaras representam personagens da Commedia dell’Arte, uma forma de teatro popular na Itália. Arlecchino é o servo trapaceiro e divertido, enquanto Pantalone é o velho avarento. Suas máscaras coloridas e trajes extravagantes são um lembrete das origens teatrais do Carnaval.

 

Tradições e Eventos do Carnaval de Veneza

O Voo do Anjo (Volo dell’Angelo)
O Voo do Anjo é uma das cerimônias mais esperadas do Carnaval de Veneza. Realizada na Piazza San Marco, a tradição remonta ao século XVI, quando um jovem acrobata turco andou sobre uma corda esticada entre um barco ancorado e o campanário de San Marco. Hoje, uma mulher vestida de anjo “voa” do campanário até a praça, marcando oficialmente o início das festividades.

A Festa delle Marie: Uma Tradição Centenária

A Festa delle Marie é uma das tradições mais fascinantes do Carnaval de Veneza, com raízes profundas que remontam a 943, embora tenha se consolidado como uma celebração formal durante o Carnaval a partir de 1039. A origem da festa está envolta em mistério e muitas interpretações, mas uma história especialmente emblemática sobrevive através dos séculos, criando a base para essa celebração cheia de brilho e simbolismo.

A Origem da Festa

A primeira referência à Festa delle Marie está ligada à “Purificazione di Maria“, celebrada em 2 de fevereiro, onde, em Veneza, era costume abençoar coletivamente o casamento de doze jovens mulheres, escolhidas entre as mais belas e pobres da cidade. Este evento ocorria na Basílica de San Pietro di Castello, uma das igrejas mais antigas da cidade, e atraía a atenção da nobreza local.

O envolvimento das famílias nobres na festa era significativo, pois elas contribuíam com grandes doações para a formação da dote das noivas. Além disso, era uma tradição que o Doge da cidade, em seu papel de líder, emprestasse joias e adornos valiosos do tesouro da cidade para enriquecer ainda mais as noivas. Após a cerimônia religiosa, as jovens formavam um cortejo que se dirigia até a Piazza San Marco, acompanhadas por membros da aristocracia e do clero. Este cortejo era um espetáculo, não só pela beleza das noivas, mas também pelos elaborados trajes e adereços.

O Sequestro das Noivas e a Vitória de Veneza

No entanto, o evento ficou marcado por um incidente dramático em 943, durante o dogado de Pietro III Candiano. Durante a cerimônia, piratas istrianos atacaram e sequestraram as noivas, levando-as junto com seus preciosos dotes. Esse ataque, que inicialmente causou grande pânico e confusão, foi seguido por uma perseguição vitoriosa. Os venezianos, liderados pelo Doge, conseguiram capturar os piratas e resgatar as jovens mulheres e seus bens. Para marcar a vitória, o Doge decretou que o local do ataque fosse chamado “Porto delle Donzelle“, um nome que permanece até hoje.

O Surgimento da Tradição

Em homenagem a esse evento heróico, a Festa delle Marie foi estabelecida como uma tradição anual. As doze jovens escolhidas para a festa passaram a ser chamadas de “Marie” e representavam a cidade de Veneza em seu esplendor. Elas desfilavam pelas ruas em um grandioso cortejo de barcos, visitando várias igrejas, participando de bailes e eventos organizados por cidadãos e pela nobreza.

Nos primeiros anos, a festa contou com doze participantes, mas com o tempo, o número foi reduzido a quatro e, eventualmente, a três, principalmente devido aos altos custos que recaiam sobre o Estado e as famílias nobres. A tradição continuou a evoluir ao longo dos séculos, mas, em um ponto crítico, a essência da festa foi comprometida. Para evitar que a atenção se concentrasse apenas nas beldades femininas, em vez de na tradição religiosa, as autoridades decidiram substituir as noivas reais por figuras de madeira. Essa alteração gerou protestos públicos, com a população insatisfeita, e o evento passou a ser visto de forma irônica, com a expressão “Maria de tola” sendo cunhada para descrever mulheres insípidas e sem graça.

A Supressão e o Retorno da Festa

A Festa delle Marie continuou a ser celebrada até 1379, quando foi suprimida devido à guerra de Chioggia, mas a lembrança dessa antiga tradição nunca se apagou. O evento foi revivido em 1999, aproximadamente seis séculos depois, com algumas modificações e adaptada aos tempos modernos, mas ainda preservando a essência de sua origem.

Hoje, a Festa delle Marie continua a ser um dos pilares do Carnaval de Veneza, mantendo viva a memória de uma das tradições mais singulares e emblemáticas da cidade.

Carros Alegóricos e Desfiles: A Elegância do Carnaval

Além das tradições como a Festa delle Marie, o Carnaval de Veneza também é conhecido pelos seus desfiles e carros alegóricos. Os desfiles em Veneza são igualmente impressionantes e únicos. Os participantes se vestem com trajes grandiosos, inspirados em figuras históricas e mitológicas, e desfilam pelas ruas da cidade, criando um espetáculo de cores e brilhos que fascina turistas e locais.

Esses desfiles fazem parte da grandiosa celebração que toma conta da cidade, com apresentações de música, dança e teatro, transformando as ruas de Veneza em um verdadeiro palco de performances artísticas.

O Carnaval de Veneza e Sua Importância Cultural

O Carnaval de Veneza é mais do que apenas uma festa. Ele é uma celebração da cultura veneziana, da história e da arte. Durante o evento, a cidade se enche de uma energia única, onde os turistas e os locais compartilham a alegria de um evento que mistura tradição e modernidade. A cidade, com suas ruas estreitas e praças históricas, torna-se o cenário perfeito para esta celebração, onde a história e a fantasia se encontram em cada esquina.

O Carnaval também é uma oportunidade para muitos artistas, artesãos e designers locais mostrarem seu talento, criando máscaras, trajes e acessórios únicos. A arte e a artesanato desempenham um papel fundamental, sendo uma parte essencial da experiência veneziana, tanto para os participantes quanto para os espectadores.

Gastronomia do Carnaval

Durante o Carnaval, Veneza é invadida por doces típicos, como:

  • Frittelle: “Le Fritole” em dialeto veneziano, são bolinhos leves, fritos, recheados com creme, passas ou chocolate.
  • Galani: Finas tiras de massa frita, polvilhadas com açúcar de confeiteiro, levíssimas e deliciosas.

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Deborah Jappelli

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