Jardins Românticos de Giuseppe Jappelli: quando a paisagem vira poesia
A genialidade de um arquiteto que transformou parques e vilas italianas em verdadeiros palcos do romantismo paisagístico, onde arte, natureza e emoção se entrelaçam.
- 14 de abril de 2025
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Tenho a honra de ser descendente do arquiteto visionário Giuseppe Jappelli, mestre veneziano que soube transformar a paisagem com um traço que mescla o rigor neoclássico e a poesia romântica. Nascida em Padova, cidade que abriga uma de suas obras mais emblemáticas — o célebre Caffè Pedrocchi —, compartilho aqui um mergulho por alguns dos mais belos Jardins Românticos da Itália. Espaços onde a natureza encenada encontra a alma do século XIX, revelando a genialidade de um criador que reinventou o verde como espetáculo.
Entre colinas artificiais, grutas misteriosas e espelhos d’água que refletem o céu veneziano, esconde-se um legado cultural que poucos conhecem fora da Itália: os jardins de Giuseppe Jappelli. Caminhando por suas criações, é possível sentir o sopro do Romantismo italiano em cada curva de caminho, em cada árvore estrategicamente posicionada, em cada vista cuidadosamente planejada para provocar emoção e contemplação. Nos próximos minutos, convido você a embarcar comigo numa jornada sensorial pelos espaços verdes projetados por um dos maiores gênios do paisagismo italiano do século XIX.

O Homem por Trás dos Jardins: Giuseppe Jappelli e sua Trajetória
Nascido em Veneza em 14 de maio de 1783, Giuseppe Jappelli cresceu em um período de profundas transformações na Europa. Filho caçula de uma família de nove irmãos, seu pai, Domenico Jappelli (mesmo nome do meu avô), era um bolonhês que servia como secretário do priorado da Ordem de Malta em Veneza – uma posição que garantiu ao jovem Giuseppe exposição a círculos intelectuais e artísticos desde cedo.
Sua formação artística começou possivelmente por influência de seu primo Luigi Jappelli, um talentoso pintor e decorador teatral ativo no Vêneto e posteriormente na Espanha. Após a morte de seu pai em 1798, sob a proteção de seu tio Filippo, um influente eclesiástico, Jappelli matriculou-se na Accademia Clementina de Bolonha (hoje Academia de Belas Artes), onde estudou arquitetura e escultura, revelando um talento especial para cenografia.
O jovem Jappelli não se limitou apenas às artes visuais. De volta a Veneza, frequentou o renomado cartógrafo Giovanni Valle e, a partir de 1803, tornou-se agrimensor, dedicando-se a projetos de regulação das águas do rio Piave, em colaboração com o especialista em hidráulica Paolo Artico. Essa formação diversificada – combinando arte, técnica e ciência – seria fundamental para sua abordagem revolucionária no design de jardins anos mais tarde.
A carreira de Jappelli foi profundamente influenciada pelos eventos políticos de sua época. Em 1807, ingressou no Corpo de Engenheiros das Águas e Estradas do Departamento Francês do Brenta e do Alto Pó, durante o período napoleônico. Sua admiração pelos ideais iluministas o levou a ingressar em 1806 na maçonaria veneziana, círculo que proporcionou importantes conexões intelectuais e profissionais.

O Jardim Romântico: Filosofia e Estética
Antes de mergulharmos nas criações específicas de Jappelli, é importante compreender o que caracterizava o jardim romântico como movimento estético e filosófico. Surgido no final do século XVIII e florescendo durante o XIX, o jardim romântico representou uma ruptura com a rigidez geométrica dos jardins à francesa, propondo uma nova relação entre o homem e a natureza.
O jardim romântico italiano, e particularmente os concebidos por Jappelli, pode ser entendido como uma resposta sensível ao racionalismo iluminista. Não se tratava apenas de um estilo paisagístico, mas de uma verdadeira declaração filosófica sobre a relação entre cultura e natureza, entre ordenamento e espontaneidade, entre razão e emoção.
As características fundamentais dos jardins românticos incluem:
- Valorização da irregularidade natural: Caminhos sinuosos, lagos de contornos orgânicos e topografia variada, que convidam ao passeio contemplativo e à descoberta gradual.
- Elementos arquitetônicos evocativos: Pontes rústicas, grutas artificiais, ruínas cenográficas, pavilhões e templos que sugerem narrativas históricas ou mitológicas, estimulando a imaginação do visitante.
- Composição pictórica: A paisagem é concebida como uma sucessão de “quadros” ou cenas, com pontos de vista privilegiados, onde cada ângulo oferece uma nova perspectiva emocional.
- Simbolismo: Uso de elementos carregados de significado, desde plantas específicas até estruturas arquitetônicas, que transmitem mensagens filosóficas, esotéricas ou políticas.
- Vegetação diversificada: Preferência por espécies exóticas e nativas em composições que simulam a naturalidade, mas são cuidadosamente planejadas para criar contrastes de cor, textura e altura.
- Água como elemento vital: Presença de lagos, cascatas, riachos e fontes que trazem movimento, som e reflexos, atuando como espelhos do céu e da vegetação circundante.
No contexto italiano, esses princípios foram adaptados à tradição cultural local e às peculiaridades climáticas e topográficas da península. Jappelli soube interpretar essas diretrizes com sensibilidade única, criando jardins que dialogavam com a rica herança cultural italiana enquanto introduziam novidades estéticas e botânicas da Inglaterra e França.
Do Neoclassicismo ao Romantismo: a dualidade de Jappelli
Um aspecto fascinante da obra de Giuseppe Jappelli é a aparente dualidade entre suas criações públicas e privadas. Enquanto seus projetos de edificações públicas seguiam geralmente preceitos neoclássicos, priorizando ordem, simetria e racionalidade, seus jardins mergulhavam na estética romântica, explorando emoção, assimetria e surpresa.
Esta dualidade não era contraditória, mas complementar. O mesmo homem que projetou a rigorosa fachada neoclássica do matadouro municipal de Pádua (posteriormente convertido no Instituto de Arte “Pietro Selvatico“), com suas colunas dóricas que evocam o Partenon, também criou os labirintos vegetais e as grutas misteriosas do Parque Treves de’ Bonfili.
Talvez a obra que melhor simbolize essa integração de ideais seja o Caffè Pedrocchi em Pádua, iniciado em 1826 e concluído em 1842. O edifício principal, de linhas neoclássicas, foi complementado pelo chamado “Pedrocchino”, uma extensão em estilo neogótico. Esta justaposição de estilos reflete não apenas o ecletismo da época, mas a própria versatilidade criativa de Jappelli, capaz de transitar entre diferentes linguagens arquitetônicas sem perder coerência.

Os Jardins de Pádua: O Coração da Obra de Jappelli
É em Pádua, cidade onde Jappelli passou a maior parte de sua vida profissional, que encontramos algumas de suas criações paisagísticas mais significativas. A cidade, já famosa por seu histórico Jardim Botânico (o mais antigo do mundo ainda em sua localização original), tornou-se um verdadeiro laboratório para as experiências estéticas de Jappelli.
Parco Treves de’ Bonfili
Concebido entre 1829 e 1835, o Parco Treves é considerado um dos exemplos mais bem preservados da arte paisagística de Jappelli. Ocupando uma área de aproximadamente 9.600 m², o jardim foi encomendado pela família Treves de’ Bonfili, uma rica família judia que desejava um espaço que refletisse seu status social e cultural.
O parque apresenta todos os elementos característicos do jardim romântico: caminhos sinuosos que revelam constantemente novas perspectivas, colinas artificiais que criam dinâmica na topografia, um pequeno lago com uma ilha, e várias estruturas arquitetônicas que enriquecem a experiência do visitante. Entre essas estruturas, destaca-se uma estufa de plantas exóticas e um pequeno templo em estilo neoclássico.

A vegetação foi cuidadosamente selecionada para criar contrastes de forma, cor e textura. Jappelli incluiu árvores monumentais como plátanos, cedros e carvalhos, além de arbustos exóticos e plantas floríferas dispostas de modo a parecerem naturais, embora fossem resultado de planejamento meticuloso.
Após sofrer graves danos ao longo do tempo, o parque foi restaurado na década de 1990 e hoje é propriedade do município de Pádua, aberto ao público. A entrada principal fica na Via Bartolomeo d’Alviano, e cada visita proporciona uma experiência diferente, conforme as estações do ano transformam a paleta de cores e texturas da vegetação.
Giardino Giacomini Romiati
Projetado em 1838, o Jardim Giacomini Romiati, localizado na Via del Santo, é outro exemplo notável da arte de Jappelli. Este jardim se destaca pela habilidade com que o arquiteto integrou o espaço verde a estruturas arquitetônicas preexistentes, criando um diálogo harmonioso entre o construído e o natural. A abside da igreja de São Francisco cria um cenário sugestivo, assim como a torre.

Menor que o Parco Treves, o Giardino Giacomini Romiati concentra em seu espaço compacto uma surpreendente variedade de ambientes e atmosferas. Jappelli utilizou elementos como pérgolas, pequenas fontes e bancos estrategicamente posicionados para criar recantos íntimos que convidam à contemplação.

A composição vegetal inclui espécies ornamentais raras, árvores de sombra e plantas aromáticas, dispostas de modo a criar um percurso sensorial que estimula todos os sentidos. O jardim exemplifica a capacidade de Jappelli de transformar espaços urbanos limitados em oásis de tranquilidade e beleza.
Giardini Pacchierotti
Datado de 1840, este complexo de jardins situado entre o Jardim Botânico e o Prato della Valle representa a maturidade do estilo de Jappelli. Os Giardini Pacchierotti incluem uma notável variedade botânica, com árvores centenárias, arbustos ornamentais e flores que criam um mosaico vivo de cores e texturas. Um aspecto distintivo deste jardim é a forma como Jappelli trabalhou com a água, criando canais, pequenas cascatas e um lago central que reflete o céu e a vegetação circundante.
As estruturas arquitetônicas incluem uma orangerie (estufa para cultivo de cítricos), pavilhões de descanso e pontes rústicas que conectam diferentes áreas do jardim. Particularmente interessante é a colina artificial que Jappelli construiu, criando um ponto de observação privilegiado e, ao mesmo tempo, um elemento visual que dinamiza a paisagem.
Oratório e Giardino della Libera
Concluído em 1821 na localidade de Volta Brusegana, este projeto menor porém significativo demonstra a versatilidade de Jappelli e sua capacidade de unir espaços religiosos e naturais de forma harmoniosa.
O oratório, de linhas neoclássicas, é complementado por um jardim que, embora modesto em dimensões, apresenta uma composição cuidadosamente estudada. A vegetação, predominantemente nativa, cria um ambiente contemplativo que complementa a função religiosa do espaço.
Esta obra ilustra como Jappelli conseguia adaptar seus princípios estéticos a diversos contextos e programas arquitetônicos, sempre mantendo a coerência de sua visão artística.
Além de Pádua: A Marca de Jappelli no Vêneto
A influência de Jappelli estendeu-se muito além de Pádua, deixando uma marca significativa em várias cidades do Vêneto e em outras regiões da Itália. Estas obras demonstram a adaptabilidade de seu estilo a diferentes contextos geográficos e culturais.
Villa Valmarana em Saonara
Iniciado em 1816, o jardim da Villa Valmarana (também conhecida como Cittadella Vigodarzere) em Saonara, província de Pádua, representa um dos primeiros trabalhos paisagísticos significativos de Jappelli. Este projeto foi encomendado por Andrea Vigodarzere, um aristocrata com quem Jappelli compartilhava interesses culturais e políticos.
O jardim de Saonara já demonstra a plena assimilação dos princípios do jardim romântico inglês, mas com uma interpretação muito pessoal. Jappelli incluiu elementos simbólicos como a famosa “gruta dos templários”, que faz referência à maçonaria, da qual tanto o arquiteto quanto o proprietário eram membros.

A vegetação foi planejada com rigor botânico e sensibilidade estética, criando uma sucessão de cenários que se transformam ao longo do passeio. Especialmente notável é o uso de coníferas e árvores perenes, que garantem interesse visual durante todo o ano.
Este jardim, ainda hoje bem preservado, constitui um dos exemplos mais antigos e completos da arte paisagística de Jappelli, com um repertório de temas e soluções que seriam posteriormente desenvolvidos em seus projetos mais tardios.
Villa Gallarati Scotti
Localizada em Fontaniva, na província de Pádua, é uma das propriedades históricas mais notáveis da região do Vêneto. Anteriormente conhecida como Ca’ Orsato e Villa Cittadella Vigodarzere, sua origem remonta ao início do século XVI. A villa passou por diversas transformações ao longo dos séculos, incluindo a construção de um magnífico jardim ao estilo inglês, atribuído a Giuseppe Jappelli, renomado arquiteto e engenheiro veneziano do século XIX.

O Parco Jappelli, como é conhecido, é um exemplo clássico de jardim romântico, caracterizado por suaves declives, caminhos sinuosos, pequenos riachos e uma variedade impressionante de espécies vegetais, algumas delas centenárias. O parque cobre uma área de aproximadamente três hectares e foi projetado para proporcionar uma experiência sensorial e espiritual, alinhada com os ideais românticos da época.
Villa Trieste (Piazzola sul Brenta)
O jardim, projetado por Giuseppe Jappelli nas primeiras décadas do século XIX e realizado entre 1835 e 1840, faz parte do ciclo dos “jardins iniciáticos”, junto com o Giardino Treves e o Giardino Selvatico-Meneghini. O objetivo de Jappelli era, por meio do percurso pelo jardim e da experiência sensível, redescobrir o valor da natureza, mas sobretudo o desabrochar do “eu”. O fio condutor que caracteriza os três jardins iniciáticos é a água, entendida como metáfora da vida e da eterna transformação.
O Giardino Trieste, em particular, apresenta elementos típicos do léxico maçônico e alquímico: o lago, a casinha do Rei Pescador, a torre do conhecimento astronômico e as pontes dos uroboros. Este último elemento, em especial, é uma metáfora do ciclo eterno dos renascimentos e de todo o mundo vegetal. O templo erguido no jardim romântico apresenta afrescos das Quatro Estações, pintados por Vincenzo Gazzotto, autor também dos afrescos do Teatro Verdi, além de colaborador de Jappelli no Caffè Pedrocchi.
Villa Gera em Conegliano
Projetada em 1827 na província de Treviso, a Villa Gera representa uma feliz integração entre arquitetura neoclássica e paisagismo romântico. A villa propriamente dita, com seu imponente pórtico e frontão triangular, dialoga de forma harmoniosa com o jardim circundante, criando uma composição unitária.

O jardim se desenvolve em diferentes níveis, aproveitando a topografia natural da colina. Jappelli criou um sistema de terraços e rampas suaves que conduzem o visitante por uma sequência de ambientes, cada um com seu próprio caráter. A vegetação inclui majestosos ciprestes, que estabelecem um diálogo com a tradição paisagística toscana, além de árvores frutíferas e espécies ornamentais.
Um elemento distintivo deste projeto é a integração entre espaços produtivos e ornamentais. Jappelli conseguiu incorporar áreas de vinhedo e pomar ao desenho paisagístico, transformando elementos funcionais em componentes estéticos do conjunto.
Villa Ca’ Minotto em Rosà
Datada de 1832, esta propriedade na província de Vicenza é um exemplo da capacidade de Jappelli de trabalhar com espaços amplos em contextos rurais. O jardim se estende por uma área considerável, criando uma transição gradual entre o ambiente construído da villa e a paisagem agrícola circundante.

A composição inclui um grande lago artificial com contornos naturais, pontes rústicas, bosques planejados e clareiras que se abrem inesperadamente, oferecendo vistas cuidadosamente enquadradas. A vegetação combina espécies nativas com exemplares exóticos, criando contrastes interessantes de forma e textura. A villa e seu jardim exemplificam o novo ideal de residência rural que emergia no século XIX: não mais apenas um centro de produção agrícola, mas um espaço de fruição estética e vivência cultural integrado à natureza.
Villa de Manzoni ai Patt em Sedico
Concluída em 1835 na província de Belluno, esta villa e seu jardim refletem a maturidade artística de Jappelli. O projeto inclui uma elegante construção neoclássica que se harmoniza com um parque de características românticas.
O jardim de Villa de Manzoni se destaca pelo aproveitamento magistral da paisagem montanhosa circundante. Jappelli criou pontos de observação estratégicos de onde se pode admirar as montanhas dolomíticas ao fundo, incorporando assim a paisagem natural como um elemento compositivo do jardim.
A vegetação foi selecionada considerando o clima mais frio desta região montanhosa, com predominância de coníferas e espécies resistentes. Especialmente notável é a disposição de massas arbóreas que criam jogos de luz e sombra, enquadrando vistas específicas e estabelecendo diferentes atmosferas ao longo do percurso.
Villa Soranzo Conestabile em Scorzè
Ampliada por Jappelli em 1838, esta villa na província de Veneza é um exemplo interessante de sua abordagem ao trabalhar com propriedades históricas preexistentes. O arquiteto ampliou a ala sul da villa e criou um jardim inglês que complementa a arquitetura.
O projeto paisagístico incorpora elementos de água, como canais e pequenos lagos, em referência à tradição veneziana. A vegetação inclui árvores monumentais, arbustos em flor e plantas aquáticas, criando um microcosmo que representa a diversidade botânica do Vêneto.
Este jardim demonstra a capacidade de Jappelli de adaptar o idioma romântico a contextos específicos, respeitando a identidade cultural e geográfica de cada local.

A Experiência Romana: Villa Torlonia
A fama de Jappelli como paisagista ultrapassou as fronteiras do Vêneto, chegando até Roma, onde foi convidado pelo príncipe Alessandro Torlonia para trabalhar nos jardins de sua villa na Via Nomentana. Este projeto, desenvolvido entre 1835 e 1840, representou um desafio particular para Jappelli, que precisou adaptar sua sensibilidade nórdica ao clima e à cultura da Itália central.
O núcleo original da villa, projetado por Giuseppe Valadier entre 1802 e 1806, seguia princípios formais clássicos. Jappelli adicionou uma área de jardim romântico na parte sul da propriedade, criando um contraste estilístico que enriquecia a experiência do visitante.
Entre suas contribuições, destacam-se a Serra Moresca (uma estufa inspirada na arquitetura islâmica), a Torre (estrutura policromática em ferro e vidro inspirada no Alhambra de Granada), a Capanna Svizzera (uma cabana rústica posteriormente transformada na Casina delle Civette) e a espetacular Gruta, infelizmente em grande parte destruída, que incluía formações de estalactites e estalagmites em gesso e pontes suspensas.
Apesar dessas dificuldades, sua contribuição para Villa Torlonia permanece como um exemplo significativo da adaptação do jardim romântico ao contexto mediterrâneo, incorporando referências à tradição clássica italiana e elementos da cultura islâmica que fascinavam a elite europeia da época.
Inovações Técnicas: O Engenho de Jappelli
Uma das características mais impressionantes dos jardins de Jappelli é a sofisticação técnica que subjaz à sua aparente naturalidade. O arquiteto utilizou seu conhecimento de engenharia hidráulica, mecânica e agrimensura para criar efeitos surpreendentes e resolver problemas técnicos complexos.
Em seus jardins, a água nunca é apenas um elemento decorativo, mas um componente dinâmico que anima o espaço. Jappelli projetou sistemas hidráulicos complexos para alimentar fontes, mover pequenas cascatas e manter lagos com níveis constantes, muitas vezes utilizando o declive natural do terreno para criar pressão natural.
Particularmente engenhoso foi o mecanismo, infelizmente perdido, que criou para a Torre de Villa Torlonia, onde uma mesa ricamente posta aparecia como que por mágica, surpreendendo os convidados. Este tipo de dispositivo, que combinava utilidade prática com teatralidade, era característico da abordagem de Jappelli, que via o jardim como um espaço tanto de contemplação quanto de entretenimento.
Sua perícia técnica também se manifestava no modelado do terreno, criando colinas artificiais, grutas e vales que pareciam completamente naturais, mas eram fruto de cuidadoso planejamento e execução. A distribuição da vegetação, igualmente, revela conhecimento botânico aprofundado, considerando não apenas o efeito estético, mas também as necessidades específicas de cada espécie e sua adaptação ao microclima local.
O Legado de Jappelli: Conservação e Relevância Contemporânea
O legado de Giuseppe Jappelli é uma herança cultural que merece ser preservada e valorizada. Seus jardins não são apenas monumentos históricos, mas espaços vivos que continuam a evoluir e a proporcionar experiências significativas para seus visitantes.
Hoje, vários dos jardins projetados por Jappelli estão abertos ao público, como o Parco Treves em Pádua, permitindo que novas gerações experimentem sua visão artística. Outros permanecem em propriedades privadas, mas são ocasionalmente acessíveis durante eventos especiais ou mediante agendamento.
A conservação destes espaços enfrenta desafios significativos. Jardins históricos são ecossistemas complexos que requerem manutenção constante e especializada. Árvores centenárias chegam ao fim de seu ciclo de vida, sistemas hidráulicos originais se deterioram, e mudanças climáticas afetam o equilíbrio botânico. Restaurar um jardim histórico exige conhecimento interdisciplinar, conjugando história da arte, arquitetura paisagística, botânica e engenharia.
Felizmente, nas últimas décadas tem havido um renovado interesse pelos jardins históricos italianos, resultando em projetos de restauro como o realizado no Parco Treves nos anos 1990. Estes esforços são essenciais para preservar não apenas a obra de Jappelli, mas toda uma tradição paisagística que é parte integral da identidade cultural italiana.
Percorrendo os Jardins de Jappelli Hoje
Para quem deseja explorar o legado de Jappelli, a cidade de Pádua oferece o ponto de partida ideal. O visitante pode começar pelo Caffè Pedrocchi, sua obra arquitetônica mais conhecida, no centro histórico da cidade. Este café histórico, ainda em funcionamento, permite experimentar o ambiente cultural que Jappelli criou como ponto de encontro para intelectuais e artistas.
Nas proximidades, o Parco Treves pode ser visitado durante os horários de abertura do jardim público, oferecendo uma imersão no mundo estético do jardim romântico. Dependendo da época do ano, outros jardins de Jappelli podem estar abertos para visitação, como parte de iniciativas culturais como “Giornate FAI” (dias especiais organizados pelo Fundo Ambiente Italiano) ou “Ville Venete Aperte”.
Para uma experiência mais completa, vale a pena estender a exploração ao além de Pádua, visitando Villa Gera em Conegliano ou Villa de Manzoni em Sedico, que combinam arquitetura neoclássica com jardins românticos em excelente estado de conservação.
Reflexão Final: A Poética dos Jardins de Jappelli
Os jardins de Giuseppe Jappelli não são apenas espaços físicos, mas narrativas tridimensionais que convidam o visitante a uma experiência imersiva. Cada elemento – uma ponte rústica sobre águas tranquilas, uma gruta misteriosa, uma clareira ensolarada após um túnel de vegetação densa – faz parte de uma composição maior que estimula emoções e reflexões.
Em uma época de aceleração constante e consumo visual rápido, esses jardins nos convidam a desacelerar, a observar detalhes, a perceber mudanças sutis de luz e sombra, a sentir fragrâncias e texturas. Eles oferecem uma contraparte necessária à nossa vivência urbana contemporânea, lembrando-nos da importância da contemplação e do contato com o mundo natural.
O legado de Jappelli permanece vivo não apenas nos jardins que criou, mas na sensibilidade estética que nos transmite. Sua visão de harmonia entre natureza e cultura, entre emoção e razão, entre tradição e inovação, continua relevante e inspiradora para os desafios de nosso tempo.
Ao concluir esta viagem pelos jardins românticos de Giuseppe Jappelli no Vêneto, ficamos com um convite: buscar esses espaços, experienciá-los pessoalmente, permitir-se o tempo para absorver sua beleza e significado. Porque, como diria um verdadeiro romântico, alguns lugares não se destinam apenas a ser vistos, mas a ser sentidos.
Informações Práticas para Visitantes:
- Parco Treves de’ Bonfili: Localizado na Via Bartolomeo d’Alviano, Pádua. Aberto ao público como jardim municipal com horários específicos de visitação.https://www.padova.com/discover/bR/treves-de-bonfili-garden/images/478
- Caffè Pedrocchi: Situado no centro histórico de Pádua (Via VIII Febbraio, 15), permanece em funcionamento como café e espaço cultural. Caffé Pedrocchi
- Villa Cá Minotto a Rosá
- Villa Gera: Em Conegliano, província de Treviso. Verificar disponibilidade para visitas, pois é uma propriedade privada ocasionalmente aberta ao público.https://www.instagram.com/villageraconegliano/
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Villa Gallarati Scotti a Fontaniva https://www.villagallaratiscotti.com/il-parco/
- Villa de Manzoni ai Patt: Em Sedico, província de Belluno. Casa-museu aberta ao público com horários específicos.
- Villa Torlonia: Em Roma, Via Nomentana. Aberta ao público como parte do sistema de museus da cidade de Roma.
Recomenda-se verificar antecipadamente os horários de abertura e possíveis necessidades de reserva, especialmente para propriedades privadas.

✍️ Idealizadora e autora do Verament...